a comissom de cultura científica perante a crise do coronavírus

23 de Março de 2020

cabezalho

A Comissom de cultura científica da Gentalha vem de publicar umha análise sobre a crise do coronavírus:

Perante a crise global desatada pola pandemia de COVID-19, a Comissom de cultura científica da Gentalha do Pichel quer fazer públicas as seguintes reflexons:

A URGENTE NECESSIDADE DE CRIAR CULTURA CIENTÍFICA AO SERVIÇO DO POVO

Se algo pujo em evidência a crise sanitária desatada no Estado espanhol pola rápida propagaçom do SARS-CoV-2, é a deficitária alfabetizaçom científica que garante o sistema educativo espanhol.

Tanto na Galiza, como nos restantes povos do reino de Espanha, constatou-se umha enorme dificuldade por parte da maioria social, para compreender as medidas que tanto os governos autonómicos como posteriormente, o Estado, estavam a tomar. Paralelamente, as próprias autoridades políticas mostrárom as mesmas dificuldades para emitir umha mensagem pedagógica que, desde a evidência científica, fosse capaz de explicar-nos à populaçom a razom das medidas. Preferirom militarizar a crise já nos primeiros momentos situando como autoridade nas comunicaçons públicas a representantes do Exército espanhol e tardarom umha semana em criar um comite cientifico asesor. A propagaçom de bulos em redes sociais também dá ideia da necessidade de formaçom a respeito do conhecimento de fontes de informaçom fiáveis a nível científico.

Todo isto levou a que os mecanismos de contençom da propagaçom do vírus se tivessem que aplicar recorrendo exclusivamente ao uso do autoritarismo edulcorado com mensagens institucionais de heroicismo, despregando as forças repressivas nas nossas ruas. A linguagem bélica e a própria posta em cena das rodas de imprensa posteriores ao “Comité de Gestión Técnica del Coronavirus”, com arengas por parte de altos mandos militares a que “todos nos comportemos como soldados” dam testemunho deste fenómeno. Vergonhenta a imagem dum governo que, em lugar de apostar na informaçom e pedagogia, promove este tipo de discursos.

Os bares e esplanadas ateigadas, os deslocamentos massivos a zonas de “veraneo” desde os principais focos de contágio ou as irresponsáveis reticências de autoridades políticas a fechar centros de trabalho, nom se podem analisar exclusivamente como consequência do individualismo mas também como um claro produto da falta de formaçom.

A maioria da populaçom desconhecemos medidas básicas de segurança perante umha ameaça infeciosa. E isto representa umha grave carência dum sistema educativo que desprecia nas etapas de ensino obrigatório a cultura científica e sanitária e elitiza este tipo de conhecimentos, garantindo-os apenas a sectores de estudantado muito minoritários, e com um manifesto sesgo de clase, que alcançam os níveis do ensino superior.

Por isso, a Comissom de cultura científica da Gentalha encontra nesta crise mais umha razom de ser, pois é urgente melhorar a alfabetizaçom científica do povo como arma defensiva nom apenas da manipulaçom do capitalismo, mas também em situaçons de emergência sanitária como a que estamos a viver.

A IMPORTÁNCIA DAS VACINAS COMO MECANISMO DE IMUNIZAÇOM INDIVIDUAL E COLETIVA

A crise sanitária que estamos a experimentar mostra-nos a vulnerabilidade do ser humano perante os microorganismos e a centralidade das vacinas como escudo defensivo dos mesmos, especialmente no caso dos vírus.

Podemos afirmar que após perto dum século de progresso científico acelerado, a segurança sanitária da que gozamos nos países do centro capitalista transitou nalguns casos para a inconsciência de quem se chegou a sentir isento das ameaças infeciosas, descuidando e mesmo despreçando aspectos básicos da saúde coletiva.

Por isso, nom queremos deixar de insistir na importáncia das vacinas como elemento indispensável no progresso da espécie humana e na necessidade de alargar e efectivizar a investigaçom científica, tirá-la das maos especuladoras do Capital e destiná-la única e exclusivamente ao seu principal cometido: melhorar as nossas vidas e assegurar o futuro da vida no planeta.

O CAPITALISMO COMO MODELO SOCIAL FALIDO E DESHUMANO

Outro dos aspectos que pujo em evidência a crise que estamos a viver é como o capitalismo e a ideologia liberal conduzem a humanidade a um processo de autodestruçom. Com a “inocente” retórica das liberdades individuais, a classe dominante foi capaz de impor-nos um modelo social que situa o processo de acumulaçom de Capital por acima da totalidade da vida do planeta ou em palavras mais simples, nos situa na cruel contradiçom: Capital / vida. Esta contradiçom clarificou-se no caso do Reino Unido, com o Primeiro Ministro Boris Johnson assumindo sem “pelos na língua” a incapacidade para frear a pandemia e a decisom, posteriormente rectificada, de sacrificar “várias dúzias de miles de vidas” em benefício dos interesses económicos.

Mas a crueldade do caso inglês nom deve anuviar o próprio caso galego onde os aplausos e vítores às profissionais sanitárias, transformadas repentinamente em personagens de Marvel, contrastam com os recortes dos investimentos económicos feitos em Sanidade, que se cifram em centos de milhons de euros desde 2009 tal e como se pode comprovar nos orçamentos públicos da Junta da Galiza, e com a enorme precariedade que padecem as suas trabalhadoras submetidas a contrataçons temporais, jornadas intermináveis, rátios paciente-médica inassumíveis ou falta de recursos. As voluntárias do chapapote e os Bombeiros de Nova Iorque sofrerom essa mesma mutaçom perversa que nos narcotiza com boas intençons e que atenua as contradiçons e as posiçons de contra-poder.

Vemos, ademais, como economias planificadas como a chinesa, cubana ou venezuelana, tam criticadas polos meios de comunicaçom ocidentais, estám a mostrar umha maior solvência na gestom da pandemia, sem medo a priorizar a proteçom das vidas aos interesses económicos e mesmo oferecendo meios e recursos a Estados em situaçom dramática como o italiano ou o espanhol, num exercício de solidariedade internacionalista pouco comum a nível planetário.

AS MEDIDAS DE CONTENÇOM COMO JEITO DE OCULTAR UM SISTEMA SANITÁRIO EM PROCESSO DE DESMANTELAMENTO

Precisamente em relaçom ao ponto anterior, observa-se como as drásticas medidas de conteçom que o Estado se viu obrigado a tomar, estám dirigidas a mitigar o colapso dum sistema sanitário maltratado por anos de infrafinanciamento para favorecer a sanidade privada.

Como se observa na seguinte gráfica, a linha de pontos mostra a capacidade máxima do sistema sanitário para dar resposta a doentes. A linha azul mostra o número de doentes que se produziriam de nom aplicarem-se medidas de contençom. Por último, a linha vermelha refere-se à famosa expressom “achatar a curva”, pois representaria o número de casos mais amplamente distribuídos no tempo para que nom cheguem a saturar o sistema de saúde.

Aprecia-se como a capacidade máxima de acolhida a doentes por parte do sistema sanitário é determinante em dar umha correta resposta à crise. De nom ter-se experimentado os massivos recortes que se produzírom, sem dúvida o nível de colapso e improvisaçom que estamos a ver nom se produziriam.

A FALTA DE SOBERANIA TERRITORIAL TAMBÉM AFECTA À NOSSA SAÚDE

Na Galiza, 70% dos primeiros casos conhecidos de infectadas polo coronavirus, procediam de Madrid. Porém, malia ser evidente que esta cidade é o principal foco de contágio do Estado, o governo espanhol nom tomou medidas para impedir que se produzisse o deslocamento de milhares de madrilenos a zonas de “veraneo”, entre as quais se situa boa parte da costa galega.Paralelamente o governo de Feijoó na Galiza também nom tomou medidas para impedir o acesso de pessoas procedentes de focos infectados, favorecendo a expansom dum vírus com umha contagiosidade demonstradamente elevada e que segue umha progressom de carácter exponencial.

Amparados no mantra de que “o vírus nom sabe de territórios nem de fronteiras” e o posterior “#estevirusloparamosunidos” negárom-se a fechar os focos de contágio do Estado, vulnerando toda recomendaçom científica e agindo sob interesses unicamente políticos. E afirmamos isto porque ao tempo que Feijoó negava a necessidade de impedir deslocamentos desde outros pontos do Estado, pedia o fecho de fronteiras com Portugal, país com muito inferior cifra de infectadas. Como é que se explica isto se nom é em base a critérios exclusivamente políticos?
Este erro de consequências dramáticas foi fortemente criticado na Galiza, onde se constata umha clamorosa vontade de “fechar Madrid” ou fechar fronteiras com Espanha ao vermo-nos indefesas ante a irracionalidade de quem por defender o projeto nacional espanhol, vulnera toda evidência científica pondo em risco vidas.

Por tudo isto e mais, a Comissom de cultura científica conclui o seguinte:

1. A crise do Covid-19 viu-se agravada pola carência de cultura científica entre a populaçom conduzindo à aplicaçom de medidas baseadas única e exclusivamente no autoritarismo e a militarizaçom das ruas.

2. Esta pandemia mostra-nos a indefensom do ser humano perante as infeçons e lembra-nos a importáncia das vacinas como elemento fundamental para a imunizaçom coletiva.

3. O capitalismo, de maos dadas com o liberalismo, mostram-se como sistemas claramente falidos, que priorizam a taxa de acumulaçom de Capital à proteçom da vida e agem à margem da evidência científica.

4. Os recortes na sanidade pública estám a ter consequências dramáticas para a gestom da pandemia ao nom contarmos com recursos humanos e materiais suficientes para fazer-lhe fronte.

5. A falta de soberania da Galiza influiu na péssima gestom da crise sanitária impossibilitando a aplicaçom de medidas baseadas em recomendaçons científicas e deixando-nos em maos de decisons políticas tomadas por todo o arco ideologico espanhol para proteger o seu projeto nacional.

Compostela, 23 de março de 2020
Comissom de cultura científica da Gentalha do Pichel

 

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