O carro de Conjo. As invasons bárbaras do Entruido compostelano (1875-1894)

10 de Fevereiro de 2021

maxresdefault

5a57194da9bae-1o.oshomesdebrigantia...

“El Martes de Carnaval vinieron el carro de Conjo, el de Puente Pedriña y el de Santa Marta, revestidos de ramos de acácia, laurel y conduciendo varias tribus de turcos y aun de turcas.
Cada cual ostentaba en la trasera un espantajo en representación del Dios Momo. Este maniquí, carnaval ó Antroido (según el dialecto del pais) vestia en el carro de Conjo uniforme de soldado español.
¡Vaya unas bromas se gastan los rurales del ayuntamiento vecino!
Ya sabes que los Cortesanos de estos reyes de paja, que tanto los veneran y adulan en su trayecto por las calles, les dan un puntapié quemándolos en seguida, asi que tornan á la aldea”
El Diario de Santiago, 15/02/1875

Num artigo do El Compostelano (27/02/1933) o jornalista Antonio Fernández Tafall lembrava o Entruido compostelano da sua infância, com o florido carro de Conjo, decorado por acácias e conduzido por moças com coroas de loureiro e mirto, que a cada pouco baixavam para bailar umha peça ao som da gaita e o tamboril. Cabe imaginar este carro carnavalesco como o que ainda sai a cada ano no enterro do Pai Velho em Lindoso (Ponte da Barca), e quem sabe se nom serviria de inspiraçom para a junta de bois que Camilo Díaz Baliño pintou no tríptico “E tras de xurdia loita os homes de Brigantia reconqueriron o Santo Grial ceibe e grorioso” (1919/1920-1922), pois o certo é que mui pouco sabemos dele.

Perante a impossibilidade de recorrer às fontes orais e a ausência de estudos etnográficos, apenas fica o que a hemeroteca conta deste costume compostelano –ou, mais propriamente, do rural santiaguês– datando a primeira referência encontrada em 1875 e anunciando-se a desapariçom da tradiçom já em 1894. Todas as informaçons, pois, venhem mediadas pola ótica burguesa de quem escrevia na escassa imprensa da época, já no momento em que Peter Burke sinala que as classes dominantes “deixárom de participar na cultura popular de forma espontânea, mas estavam no processo de redescubri-la como algo exótico”, embora com um tom fortemente classista e moralizante. Em verdade, na altura já se pode falar dum Entruido aldeám, obreiro e popular, e um Carnaval burguês.

O Carnaval, italianizante –já se figera típico o baile do domingo de pignata no Teatro Principal–, decorrida nos recintos fechados das salas de baile dos casinos e sociedades de recreio da cidade, em bailes dos quais as crónicas de sociedade davam cumprida conta citando minuciosamente os nomes e apelidos das distinguidas damas e cavaleiros que participavam, em contraste com o anonimato que fundava o Entruido popular. Nestas festas divertiam-se com disfarces elegantes, bailando valses e polcas e realizando delicados sorteios de caixas de doces entre as moças. No Diario de Santiago (06/02/1894) mesmo se pode pulsar a incomodidade de classe quando este Carnaval começa a ser permeado por “máscaras atrevidas, asquerosas y de mala fe”, artesás disfarçadas de criadas “que hablando en gallego, nos martirizan por su pesadez y tonterías”. Mesmo o “calzado brutal” que levam os farrucos, que adornavam as suas mocas com panos e vestiam polainas, era descrito como um perigo público que empanava a festa urbana. O Carnaval propriamente de rua estava reservado apenas às crianças, que faziam tunas infantis e iam polas casas recebendo obséquios em forma de gelados, doces e bebidas. Algum ano também se iluminárom os soportais de Rajói e o Hospital Real, para acolher música e baile.

No entanto o Entruido popular decorria na rua, mesmo produzindo-se umha pequena invasom aldeá e festiva –cujo emblema eram os carros– da cidade. Também os dias principais da festa popular eram diferentes da burguesa, dizendo-se que a Terça-Feira era o dia “maioritário da classe obreira”; à vez que na Quarta de Cinza se invertia o deslocamento, e “la mayor parte de nuestros operarios, como suele decirse, van na misa en Conxo”, deixando a cidade, onde se fazia o Enterro da Sardinha.
Nas paróquias viradas cara o Ulha faziam-se os atrancos, ainda nom chamados Generais, cujos combates poéticos muitas vezes rematavam a mocaços.

O carros de Entruido saiam de Conjo e Santa Marta, normalmente cada um num dia diferente. Também houvo o da Ponte Pedrinha, se bem desta última paróquia só temos notícias o ano de 1875. A comitiva dos carros, que reservava a máxima elegância na vestimenta tradicional para as moças e moços que bailavam, sempre levava um acompanhamento paródico, amiúde representando a figura que entom encarnasse “o exótico”. Assim, o carro de Conjo tem levado umha quadrilha de turcos ou toureiros, e o de Santa Marta “mouros e toureiros lisiados” ou mesmo “guerreiros, cavaleiros antigos, toureiros e chulos”. Outras comparsas apareciam polas ruas da vila apostavam nos rifenhos e, em 1887, ano de estreio da popular zarzuela La Gran Vía, a imprensa alude à “flamencomania” expressada nas paródias dos ratas (malandros) madrilenos que a protagonizam. Tampouco faltavam as paródias dos castelhanos, “o outro” tradicional do Entruido galego. Diante das comitivas, alguém ia batendo numha lata que, outrora, seria de petróleo, enquanto outros eram os encarregados de repartir folhas com os versos que cantavam.

Este costume dos carros, se bem muitas vezes se reconhecia que era a que salvava um Entruido triste e que os círculos burgueses em ocasions nem conseguiam organizar, quase sempre foi tratado pola imprensa entre o paternalismo condescendente e a burla aberta. Assim, fala-se de “esa diversión de criadas y chiquillos, que tan felices les hace”, e mesmo a habitual gabança da beleza das moças tem deixado passo a comentários sobre as coroas vegetais que levam nas sens, “grasientas con el aceite que sobra de su cabellera” (Gaceta de Galicia, 11/02/1890). No mesmo periódico (09/02/1891) dizia-se que os do carro de Santa Marta, conduzido por três parelhas labregas que bailavam a moinheira acompanhados por mouros e toureiros lisiados dacavalo, repartiam versos “que no lo eran, y que otro día que tengamos poco original los insertaremos para escarmiento de copleros”. De facto, esta brecha entre a cultura letrada e a oral era sublinhada amiúde em termos claramente pejorativos: “El carro de Santa Marta, que obstentaba un letrero cuya ortografia era propia, innata de este barrio, hizo las delicias de cierta clase de gente y de los chiquillos” (Gaceta de Galicia, 28/01/1894). Também o costume de chamar “conganos” aos de Conjo parece ter um fundo de burla cultural, toda vez que se di que é como “ellos mismos se denominaban hace dos años, en los versos que repartían” (Gaceta de Galicia, 24/02/1887).

Mas já no ano 1894 a Gaceta de Galicia (28/01/1894) anuncia que a mocidade da paróquia de Ortonho estava a preparar umhas comparsas divididas em grupos de dez pessoas, nos quais haveria general, cantineira, rei e rainha, escrivam e o resto dançarins, levando as moças o formoso traje típico da Amaia. Anunciavam a sua chegada à vila para a manhá do 2 de fevereiro, em substituiçom dum carro de Conjo que começava a esmorecer entre tanto Carnaval.

Imagens:

  • Enterro do Pai Velho em Lindoso (Ponte da Barca). Imagem do programa ‘Portugal em direto’ da RTP1.
  • Painel central do tríptico “E tras de xurdia loita os homes de Brigantia reconqueriron o Santo Grial ceibe e grorioso”, de Camilo Díaz Baliño (1919/1920-1922)

Etiquetas: