Ao mesmo tempo que centos de pessoas partem rumo à Fonsagrada ao som de Baiuca, uns carros que saíram de Santiago desviam-se na autoestrada. Os maleteiros cheos de pandeiretas, cartas e impermeáveis. Case duas horas de conduçom separam a Gentalha do Pichel da Póboa do Brolhom, onde somos acolhidos num albergue que esta noite nom vê nenhum peregrino. Efectivamente, som poucos os que se atrevem a fazer o Caminho em dezembro. Porém, essa noite nom passaremos frio: fazemo-nos companhia no sentido mais etimológico da palavra, partilhar o pam. Empadas, tortillas, doces de todo o tipo e vinho para aquecer e, depois, pandeiretas. Amanhá há cantos de taberna e, à falta de um grupo, pedírom-nos participar em nome da Gentalha. Havemos de ensaiar bem a coreografia de nabo, nabiza, grelo! Mas antes do nosso debut na Póboa tocará uma longa caminhada.

Chegar à Devesa da Rogueira leva algo mais de uma hora. A paisagem outonal fica coberta, na maior parte, pola névoa e a chuva ameaça uma caminhada difícil. Pouco tempo depois de começar a rota chegamos à Casa do Apalpador, no início da Devesa da Rogueira. Ali, Séchu contou-nos como se recuperou esta figura: em 1994, o investigador José Andrés Lopes escuitou a história do Apalpador das mulheres mais velhas da família da sua companheira no Courel e recolheu-a num artigo. Posteriormente, a partir de 2006, a Comissom de História da Gentalha do Pichel realizou um intenso trabalho de entrevistas e documentaçom na comarca, até dar forma ao Apalpador tal e como o conhecemos hoje. Trata-se de um património que esteve a ponto de desaparecer, mas que, graças ao esforço de colectivos e escolas que o recuperaram e difundiram, é cada vez mais uma das figuras da ficçom do Natal mais importantes da Galiza.
Depois de escuitar esta história, deixamos na caixa do correio as cartas que os meninos e meninas da Semente lhe escreveram ao Apalpador. A ledícia de botar as cartas no ansiado marco do correio do Apalpador e de escuitar Séchu falar-nos desta figura com base nas montanhas courelás enche-nos de energia para começar a caminhada. Avançamos pisando folhas secas, com pausas para beber, comer bolachas de chocolate ou escuitar as explicaçons orográficas de Marc e Rocco, que tanto nos ajudaram a apreciar ainda mais a beleza das covas, montanhas e cachoeiras que tínhamos ao nosso redor.
Após várias horas caminhando (algumas encharcadas, outras com energia dabondo, mas todas com ânimo de o conseguir), chegamos ao cume do pico Formigueiros (1639 metros), ao final da subida. Ali o frio era patente e a paisagem estava coberta de névoa, mas a sensaçom de chegar ali compensava qualquer esforço.

A descida foi, em geral, muito mais fácil. Tinham passado as horas e quase nom nos tínhamos decatado! Alguns baixaram um pouco antes para recolher o resto em carro: tínhamos que chegar a tempo aos cantos de taberna.
Depois de regressar à Póboa do Brolhom e de umas duchas (algumas mais frias que outras), colhemos os cadernos com o repertório dos cantos e dirigimo-nos ao primeiro bar. Taberna Vella, Bar Avenida ou Salanova foram alguns dos bares onde cantamos junto com o grupo Son do Mao. Outra das paradas chegou a ser em Salcedo, onde a Gentalha animou o ambiente com muiñeiras e jotas, Apóstolos Mangouras e, por suposto, nabos, nabizas e grelos. A noite rematou com mais música, baile e licor café até tarde, o que fez com que a manhá seguinte fosse muito mais calma.

A estadia na Póboa foi breve: nom queríamos deixar já o Courel, mas ainda ficava a visita a Froxám. A manhá acompanhou todo o caminho em carro, onde pudemos ver o monte outonal, vacas cachenas ou alvarizas. Já na aldeia pudemos desfrutar da festa tradicional da pisa da castanha, aprendendo do processo de secagem, de pisado e de crivagem. Além disso, foi uma oportunidade para provar produtos locais, muitos com a castanha como ingrediente principal. Ficamos em Froxám até depois do jantar, quando muitos decidiram despedir-se do Courel admirando as vistas desde o miradoiro da Pena da Tesa Grande ou visitando a Fundaçom Uxío Novoneyra, para finalmente regressar a Santiago, com muita vontade de repetir uma excursom assim num futuro nom muito afastado.

